Mais do que uma desculpa para o resgate de um tempo pretérito, através de uma ficção rasgada pelo documental, mais do que uma biografia fiel à cronologia dos factos que permeiam entre o nascer e o morrer, Entre Cós e Alpedriz é, sobretudo, a anatomia das pulsões, próximas de uma sensualidade que os eufemismos do discurso rural apresentam por limar. Desta ingenuidade aparente se descortina a seiva dos dias que, entre a aurora e o sol-posto, alimenta os protagonistas da luta pela sobrevivência.
Entre Cós e Alpedriz é o testemunho da existência dessa bifurcação, no caminho da vida, que nos apresenta o trilho alternativo ora como uma felicidade perdida, porque vivida no plano do hipotético, ora como um repetida ocasião de nos adaptarmos à implacável ordem das coisas. Que teria sido da vida da protagonista se tivesse ficado para todo o sempre com o campino que abusara dela? É a concepção do amor e do prazer sexual como objectos virtuais que, num ritmo próximo do de sístoles e de diástoles, ainda faz viver a octogenária Joaquina, tão igual às nossas avós e tias de negro cujos sonhos, por pudor ou um qualquer género de iliteracia, levaram consigo para o limbo.
Almerinda Pereira
Pintora e autora de O Gémeo da Normandia
(na foto à direita)



