Capítulo 13. Entre cuidado e cuidado
"De mim me sou feito alheio,
entre cuidado e cuidado
está um mal derramado
que por mal grande me veio.
Nova dor, novo receio
foi este que me tomou.
Assim me tem, assim estou."
Bernardim Ribeiro
Anda o povo desagradado com as mudanças na liturgia: os santos foram relegados para a sacristia, no altar quase despido já não tem lugar São Vicente, o santo marinheiro protector desta aldeia de camponeses, também Santa Marta, a outra padroeira, foi despejada.
--- Parece coisa de protestantes, reclamam crentes e incréus, ambos descontentes por razões diferentes.
Até o Latim deixou saudades, de tão habituados que estávamos a papagueá-lo, engana-se quem pensar que em vernáculo se compreende melhor a mensagem divina: amar, dar, não fazem parte da natureza humana, o homem é o lobo do homem, pregue-se o amor, entrará por um ouvido, sairá prontamente pelo outro, nada ficará retido, pregue-se o ódio e acorreremos eufóricos ao massacre, vou cogitando enquanto espero que o padre se cale, terminando o Santo Sacrifício dominical.
--- Se não aprecias a missa, o que estás aí a fazer? --- perguntará o leitor, que não tendo vivido in illo tempore o não pode compreender. Eu explico: raramente se faz o que se quer, a minha fé era então e ainda hoje é outra, uma religião de um só homem, que acredita em Deus, mas não sabe o que Ele é e duvida que profeta algum o tenha sequer pressentido, senão nenhum atafulharia religiões e credos com ridículas proibições, ritos descabidos, rezas inúteis, joelhos esfolados, parecendo ter como única finalidade distinguirem-se umas das outras quanto mais não seja por aquilo que se pode comer, beber ou vestir, e isto para nos podermos guerrear mutuamente em nome do Deus único e verdadeiro...
Mas, afinal, que faço eu na capela? Pois eu explico. Vim persuadido, quase obrigado pelo meu amigo João, que anda desesperado desde que a mulher o deixou, já lá vão três meses, e desde então me não larga, para que o acompanhe, o ajude, na busca da Berta. Ocorreu-lhe que na missa, rezando com fervor, poderia receber inspiração divina, algo como um pressentimento sobre o seu paradeiro, e sem coragem de vir sozinho, quase me forçou. Eu, ainda na adolescência, até passaria despercebido na igreja desta terra onde os homens apenas entram para casar, para baptizar os filhos, para funerais --- e chega bem, dirão eles, não é preciso mais. Mas o João, homem feito, com problema conjugal de todos bem conhecido, dá de imediato nas vistas: sem qualquer discrição, mesmo fingida, beatos e beatas esquecem momentaneamente as rezas mastigadas por alma de quem lá têm, viram-se ostensivamente para trás para confirmarem a sua presença, verificarem se há vestígios de lágrimas no seu rosto, não se coíbem de comentar com os vizinhos a estranheza de o ver na missa, e o bichanar percorre as filas de fiéis, sobrepõe-se ao sermão do jovem padre que se vê forçado a levantar energicamente braços e voz como se pedisse ajuda ao Alto, numa vã tentativa de recuperar a atenção do auditório...
Deixemos a coscuvilhice, concentremo-nos na prédica, não quero culpas assacadas pelo João se não receber a almejada inspiração... Aliás, parece até de propósito, as palavras do pároco poderiam sair da sua própria boca, que tanto tem sofrido --- saudades, humilhação pública, mofa, ditos e perguntas parvas:
"Até quando afligireis a minha alma e me atormentareis com vãos discursos? Já por dez vezes me humilhastes e não vos envergonhais de me insultar. Mesmo que verdadeiramente tivesse errado, o meu erro só a mim diz respeito. Mas vós levantais-vos contra mim, e me repreendeis por causa das humilhações que padeço (...) Grito contra a violência e ninguém me responde, levanto a minha voz e não há quem me faça justiça."
Então dá-se o escândalo, ainda hoje recordado: o João ergueu-se e bradou:
--- Ouviram bem o senhor prior? Se errei, o meu erro só a mim diz respeito!
Levantou-se burburinho, que prontamente cresceu e se tornou clamor: como ousava esse corno manso tomar a palavra durante a homilia, levantar a voz na casa do Senhor? E beatos e beatas, indignados com a falta de decoro, multiplicavam, não pães e peixes como Jesus fizera, mas insultos nada católicos, avançavam ameaçadores para nós, ignorando o sacerdote que os tentava apaziguar, enquanto eu arrastava para a rua o João, sempre gritando que também a ele não havia quem fizesse justiça. E chamava-lhes beatos falsos, vendo sacrilégio num sentido desabafo em local santificado, mas não dando ouvidos às palavras sagradas que acabaram de sair da boca do sr. Prior e que lhe permaneciam gravadas na memória:
"Mas vós levantais-vos contra mim, e me repreendeis por causa das humilhações que padeço!"
Da taberna em frente, do adro da igreja, até do café, um pouco mais distante, acorre o povo, atraído pela algazarra e pelos insultos vindos da portaria do templo. Puxo pelo braço do meu Job, com dificuldade consigo afastá-lo, que insiste em atirar à cara dos curiosos esse lamento de outro desgraçado como ele, destruído milhares de anos atrás sob o olhar atento do Senhor:
--- O meu erro só a mim diz respeito!
Semana após semana, ao chegar vindo do quartel, esperara encontrar a casa aberta, arejada, habitada, a Berta nos seus afazeres domésticos, a filha dormindo tranquilamente. Então bateria à porta, humildemente pediria para entrar e conversar, talvez se reconciliassem e acabassem na cama, amando-se outra vez, ou, se mulher continuasse zangada, sem sequer lhe falar, limitar-se-ia a ficar, contemplá-la, servi-la naquilo que deixasse, aguardando que lhe perdoasse.
Mas o mofo sobrepunha-se já aos cheiros a bebé, a pão, a comida cozinhada, ao próprio odor da Berta, tão peculiar, que o João sempre conseguira distinguir entre todos os outros; então, tristonho, cabisbaixo, deprimido, deixava-se ficar, sem cozinhar, sem comer, com vergonha de recorrer à casa paterna, pai e mãe desgostosos com a situação do filho, acabrunhados com a murmuração do povo, incapazes de conter remoques, ralhos e conselhos:
--- Bem te avisámos!
--- O que é que esperavas, casando à pressa com uma sopeira que mal conhecias?
--- Devias mas era ter-lhe chegado a roupa ao pêlo! Se lhe tivesses derribado uma asa, não poderia fugir assim, ainda por cima levando a tua filha!
No domingo, regressava cedo ao quartel, para nova semana de tortura, entre a esperança de que a Berta regressasse entretanto e o receio de que tal não acontecesse; entrementes, por todos os meios ao seu alcance, procurava-a incessantemente, sofridamente, e muitos daqueles a quem se dirigia apiedavam-se da sua dor, rara em homem daquela época, mais propenso a violências e a maus tratos do que a desgostos amorosos.
Ganhou coragem e voltou à Pensão Estrela, ciente da fúria e dos ralhos com que dona Noémia o receberia. Chorou-lhe depois no regaço, comovendo-a e dispondo-a a ajudá-lo; mas pouco lhe soube adiantar, salvo que a Berta por lá passara com a filha num braço, a sacola da roupa no outro. Emprestara-lhe dinheiro e ela seguira o seu caminho nessa mesma tarde, surda a rogos e a conselhos, recusando-se mesmo a pernoitar na pensão, receando talvez que a sua decisão enfraquecesse ou o João a perseguisse.
--- Procura a professora, aconselhou. --- E, se encontrares a tua mulher, tem juízo: não é com vinagre que se apanham moscas, toda a gente o sabe, ou deveria saber.
A professora recebeu-o friamente e só à vista de lágrimas sinceras se prontificou a contar-lhe o pouco que sabia: a Berta procurara-a, pedira-lhe, também a ela, dinheiro emprestado para recomeçar a vida bem longe do marido, que não queria voltar a ver, embora, admitia, muito gostasse dele. Era até possível que tivesse fugido para o estrangeiro, com um qualquer grupo que desse o salto. E mais não sabia...
Rogou por informações sobre possíveis paradeiros, direcções seguidas, mesmo que fossem meros palpites, contanto que permitissem saber se a deveria procurar a Norte ou a Sul, em cidade ou aldeia, em Portugal ou no estrangeiro. Mas também a professora não sabia...
--- E eu não posso desenfiar-me da tropa durante a semana, seria dado como desertor!
Apieda-se a professora, como dona Noémia se tinha já apiedado, mas só pode dar-lhe esperanças insinceras: que a aguarde, talvez acabe por regressar, diz, depois pensa melhor e acha preferível desenganar o João: a Berta tinha ouvidos fechados a conselhos, estava decidida a abandonar marido, país até...
--- Então acha que foi para o estrangeiro?
--- É provável. Ou talvez ainda esteja em Lisboa ou no Porto à espera de o conseguir fazer. Disse que queria ir para tão longe que nunca mais a encontrasses. Bem lhe falei na vossa filha, na vida familiar que estavam a começar, no amor que parecia existir entre vocês --- tudo isso acabou, respondeu-me. Que duvidavas da paternidade, logo nunca aceitarias a criança como tua filha; que --- e olhava reprovadoramente o João nos olhos --- lhe tinhas batido...
O João reconhecia toda a verdade nas acusações, baixava os olhos, cabisbaixo e envergonhado, nem perdia tempo a tentar justificar-se, alegando que, mais uma vez, fora a Berta a agredi-lo e daquela vez, saco cheio, não se contivera e respondera; infelizmente a cólera cegara-o e não se ficara apenas pela bofetada de troco, acrescentando mais duas ou três por conta das dívidas anteriores... Agora queria reencontrar a Berta, ou, pelo menos, saber se estava bem, se precisava de alguma coisa, ajudá-la como pudesse, se ela aceitasse, e aguardar o perdão, mesmo que demorasse.
Mas de nenhuma parte chegavam notícias. O João procurou nas grandes cidades, nas pequenas, nas vilas e aldeias deste país, por lugarejos e casais. Telefonou para todas as terras onde tinha conhecidos, muitos deles da tropa, perguntando se por lá tinham visto mulher e criança com tais e tais características. Pediu os endereços e escreveu a emigrantes, em França, na Suíça, na Holanda, na Suécia, no Canadá, no Brasil, nos Estados Unidos. Em vão. Ninguém tinha visto a Berta, nenhum indício dela. Logo que teve uma pequena licença, passou dias e dias em embaixadas e consulados, dormindo no meu quarto de estudante, arrastando-me consigo na demanda, para o ajudar com os meus fracos conhecimentos de francês e de inglês. Nada. A Berta desaparecera deste mundo, como ameaçara fazer.
Dia após dia, noite após noite, pensou em partir também ele, sem rumo, sem destino, numa busca incessante, qual Avalor procurando em barca à deriva a sua Arima --- mas o Mundo é tão grande e o homem bicho da terra tão pequeno --- e uma réstia daquela razão que nos despoja da grandeza dos homens de antanho impediu-o de se perder por esses caminhos fora, numa peregrinação incomparavelmente mais louca que a volta a Portugal em que a conhecera...





