Jose Cipriano Catarino

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Imagens

Ceslau

Dizia-se que já no final da vida tinha escrito um livro, Memórias de um bandido, contando as suas andanças e façanhas. Certamente não lhe faltou matéria, ele que impressionara todo o concelho de Alcobaça com a sua bravura e as suas proezas. Devia ser de família. Quando, no Verão de 1910, foi preso pela tropa, em Alcobaça, acusado de dar vivas à República, a irmã correu até aos Montes: — Padrinho, empreste-me a sua égua! Cós, visto da Santa RitaNão lha recusou e a mulher saiu num tropel louco, alvoroçando aldeia atrás de aldeia — Montes, Cós, Pomarinho, Maiorga, Fervença — sempre bradando Viva a República! e só se deteve em Alcobaça, estacando a égua em frente ao quartel, hoje Mosteiro:
— Morram os talassas! Viva a República!
Os militares acorreram à porta de armas, incrédulos com a provocação inopinada; depois, apercebendo-se de que era apenas uma mulher a desafiá-los, olharam divertidos para o sargento de dia, aguardando ordens.
Também ele sorriu: — Ah, mulher danada! Com gente desta como inimigos estamos feitos!

Entre Cós e Alpedriz
Actualizado em Quarta, 21 Janeiro 2009 22:45
 

Leiria

Eis Setembro, que chega fresco e risonho como a Primavera, após outro Agosto infernal, de calor e de incêndios. Não nos iludamos. Nada voltará a ser como dantes: Setembro jamais será Abril, mesmo que este Sol e esta luz nos queiram convencer de que a Primavera dura todo o ano e a juventude é eterna, mesmo que a cidade pareça a mesma, com o castelo indiferente à passagem dos séculos e o Lis correndo sempre ao encontro do irmão gémeo, para juntos procurarem o mar, sonho de todos os rios.
Repare-se naquele casal que passeia, braço dado, pelas ruas antigas. Pela maneira de olhar, vê-se bem que não são turistas vulgares, daqueles que arrumam cidades, gentes e paisagens em álbuns de fotografias. Não, eles enchem os olhos com o presente em busca de vestígios de passados já esbatidos nas suas memórias, ele atento às ruas e às casas, ela procurando sinais de reconhecimento no rosto de cada um dos transeuntes. Aqui e agora, o cavalheiro compara a cidade de hoje com a que conheceu quarenta anos atrás, quando cá chegou, vindo da aldeia natal, para fazer o Curso Indus-trial. Ela é uma mulher vistosa, demasiado vistosa mesmo, daquelas que nos obrigam a voltar a cabeça para nos certificarmos de que também o traseiro é digno da dona. Sim, é, é um rabo perfeito, bem apertado em calças justas e à meia-perna, corsárias, chamam-lhes, é um cu soberbo, empertigado e bamboleante por força dos saltos demasiado altos.
Seguimos em frente com uma réstia de inveja do felizardo que agora lhe dá o braço, atribuindo mental-mente essa ventura a carro e fortuna. Bem enganados estamos, neste caso não é verdade, bem pode o nosso ego sofrer, que mulheres como ela são para nós: como esta história mostrará, não é o interesse material que une a loira espampanante a um homem discreto como o António.
Deixemo-los então passeando pela formosa Leiria neste Setembro fresco e risonho, deixemo-los sonhar com a Primavera, acreditar na ternura e nos prazeres da cama, talvez mesmo no amor, e prossigamos, invejosos, o nosso caminho e a nossa história.

Do lacrau e da sua picada

Actualizado em Quarta, 21 Janeiro 2009 22:44
 

Santa Marta e São Vicente

No sábado, a alvorada despertou dorminhocos, ribombando ininterruptamente foguetes, para que se soubesse que aqui, entre Cós e Alpedriz, havia festa rija, em honra da santa padroeira, esquecida momentaneamente a miséria que a todos afligira, mais a uns do que a outros, como é costume. Tocou pelas ruas, no peditório, a filarmónica de Pataias, celebrando com um foguete cada esmola que entrava na saca de Santa Marta, que, conjuntamente com São Vicente, protege os Montes, ambos zelando para que o lema da terra — Montes, muito vinho e poucas fontes — continue verdadeiro, geração após geração.
O povo começava a animar, mas ainda se não via o ambiente de festa colorindo as ruas, enchendo-as de gente. Não, por enquanto ainda se passa a ferro a roupa de domingo, ainda se lava a cabeça dos cachopos, catando cuidadosamente lêndeas, esborrachando entre as unhas dos polegares piolho que tenha nascido desde a última inspecção, na semana passada. Os homens e os rapazes casadoiros já se vão reunindo no Jogo, na tasca do Ameixa, numa ou noutra adega, que a sede é sempre muita e para pobre dia de festa é dia de bebedeira de caixão à cova, pelo que nunca é cedo para começar a emborcar, um copo na tua, outro que se retribui na minha — a aldeia é grande e lá para o final da noite muitos tombarão embriagados, pernoitando talvez no Jogo, nos degraus da estátua de Santa Marta, disputando o poiso ao João Claro, não por estarem longe de casa, apenas por não a conseguirem encontrar ou por não quererem que ralhos femininos lhes azedem o dia de festa.

Entre Cós e Alpedriz

 

Roxas candeias

Não, não são reflexões que lhe perpassam por detrás dos olhos, são imagens como as dos filmes que uma vez por outra cinemas ambulantes passam no barracão da Tia Elisa, projectadas num lençol que faz as vezes de ecrã, e as imagens que lhe enchem a retina são da vinha coberta de vegetação verdejante — margaças floridas, com o seu odor inconfundível, roxas candeias que cresceram entre elas, serralhas em flor — e, esvoaçando livres por cima, longas vides que a tesoura de poda atarraca em cliques sucessivos, deixando talões de três olhos e varas de seis, gemendo seiva dos sarmentos cortados, são as nuvens fugidias que vindas do mar correm pelo céu sabe-se lá para onde — como a sua vida.

 

 

 

 

Cap. IX. Sol de Inverno. Entre Cós e Alpedriz

Actualizado em Quarta, 21 Janeiro 2009 22:28